segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Daremos uma festa para um palhaço que não foi convidado


O circo acabou. As personagens não buscam o divertimento, o riso ou a alegria. Elas buscam quase desesperadamente, através do consumo, o conforto. Não há motivos para rir. O riso é apenas um espasmo. É preciso acreditar em uma nova forma de salvação. O palhaço perdeu seu emprego. Nós estamos perdendo os nossos. É obrigação do palhaço receber nossa arrogância. O palhaço não é engraçado. Cabe ao palhaço engolir nossa fúria. Daremos uma festa para um palhaço que não foi convidado. Já não nos imrpota a felicidade, importa apenas parecermos felizes. Dividimos o mesmo espaço. Estamos no mesmo barco, que sabidamente afunda. Só nos resta uma boa poltrona para que possamos, de forma confortável, aguardar que as águas nos libertem. O palhaço enfia a cabeça no balde e a mantém submersa por cinco minutos. A água não mais purifica, apenas abafa o mundo. Às personagens resta apenas lembranças. Vagas, imprecisas, que não se compartilham. Dividem o mesmo espaço, mas não o mesmo tempo.


MUTARELLI, Lourenço. O teatro das sombras. Devir Livraria.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O patrão nosso de cada dia

Eu quero amor
da flor de cactus
Ela não quiz

Eu dei-lhe a flor
De minha vida
Vivo agitado

Eu já não sei se sei
De tudo ou quase tudo
Eu só sei de mim
De nós
De todo mundo

Eu vivo preso
a sua senha
Sou enganado

Eu solto o ar
No fim do dia
Perdí a vida

Eu já não sei se sei
De nada ou quase nada
Eu só sei de mim
Só sei de mim
Só sei de mim

O patrão nosso
de cada dia
Dia...
após dia...
O patrão nosso de cada dia...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Carta aberta dos ateus ao presidente Lula

Caro presidente




O senhor chegou ao poder carregado pela bandeira de uma sociedade mais justa e mais inclusiva. O uso da palavra "excluídos" no vocabulário das políticas públicas tem o mérito de nos lembrar que as conquistas de nossa sociedade devem ser estendidas a todos, sem exceção. Sim, devemos incluir os negros, incluir as mulheres, incluir os miseráveis, incluir os homossexuais. Mas, presidente, também é preciso incluir ateus e agnósticos, e todos os demais indivíduos que não têm religião.

Infelizmente, diversas declarações pessoais suas, assim como políticas do seu governo, têm deposto em contrário. Ontem mesmo o senhor afirmou que há "muitos" ateus que falam sobre a divindade da mitologia cristã quando estão em perigo. Ora, quando alguém diz "viche", é difícil imaginar que esteja pensando em uma mulher palestina que se alega ter concebido há mais de dois mil anos sem pai biológico. Com o tempo, algumas expressões se cristalizam na língua e perdem toda a referência ao seu significado estrito. Esse é o caso das interjeições que são religiosas em sua raiz, mas há muito estão secularizadas. Se valesse apenas a etimologia, não poderíamos nem falar "caramba" sem tirar as crianças da sala.

Sua afirmação é a de quem vê “muitos” ateus como hipócritas ou autocontraditórios, pessoas sem força de convicção que no íntimo não são descrentes. Nós, membros da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, não temos conhecimento desses ateus, e consideramos que essa referência a tantos de nós é ofensiva e preconceituosa. Todos os credos e convicções têm sua generosa parcela de canalhas e incoerentes; utilizar os ateus como exemplo particular dessas características negativas, como se fôssemos mais canalhas e mais incoerentes, é uma acusação grave que afronta a nossa dignidade. E os ateus, presidente, também têm dignidade.



Duas semanas atrás, o senhor afirmou que a religião pode manter os jovens longe da violência e delinqüência e que “com mais religião, o mundo seria menos violento e com muito mais paz”. Mas dizer que as pessoas religiosas são menos violentas e conduzem mais à paz é exatamente o mesmo que dizer que as pessoas menos religiosas são mais violentas e conduzem mais à guerra. Então, presidente, segundo o senhor, além de incoerentes e hipócritas, os ateus são criminosos e violentos? Não lhe parece estranho que tantos países tão violentos estejam tão cheios de religião, e tantos países com frações tão altas de ateus tenham baixíssimos índices de criminalidade? Não é curioso que as cadeias brasileiras estejam repletas de cristãos, assim como as páginas dos escândalos políticos? Algumas das pessoas com convicções religiosas mais fortes de que se tem notícia morreram ao lançar aviões contra arranha-céus e se comprazeram ao negar o direito mais básico do divórcio a centenas de milhões de pessoas. Durante séculos.


O mundo realmente tinha mais paz e menos violência quando havia mais religião? O despotismo dos soberanos católicos na Europa medieval e a crueldade dos feitores e senhores de escravos no Brasil-colônia vieram de pessoas religiosas em um mundo amplamente religioso que violentava povos e mentes em nome da religião. O mundo não tinha mais paz nem menos violência naquela época, como o sabem muito bem os negros e índios.

Não eram católicos os generais da ditadura contra a qual o senhor lutou, e o seu exército de torturadores? Não haveria um crucifixo nas paredes do DOPS onde o senhor foi preso? A base dos direitos individuais invioláveis pela qual o senhor tanto lutou são as democracias modernas, seculares e laicas, e não os regimes religiosos. Tanto a geografia como a história dão exemplos claros de que mais religião não traz mais paz nem menos violência.


A prática de diminuir, ofender, desumanizar, descaracterizar e humilhar grupos sociais é antiga e foi utilizada desde sempre para justificar guerras, perseguição e, em uma palavra, exclusão. Presidente, por que é que o senhor exclui a nós, ateus, do rol de indivíduos com moralidade, integridade e valores democráticos?

No Brasil, os ateus não têm sequer o direito de saberem quantos são. O Estado do qual eles são cidadãos plenos designa recenseadores para ir até suas casas e lhes perguntar qual é sua religião. Mas se dizem que são ateus ou agnósticos, seus números específicos lhes são negados. Presidente, através de pesquisas particulares sabemos que há milhões de ateus no país, mas o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que publica os números de grupos religiosos que têm apenas algumas dezenas de membros, não nos concede essa mesma deferência. Onde está a inclusão se nos é negado até o direito de auto-conhecimento? Esse profundo desrespeito é um fruto evidente da noção, que o senhor vem pormenorizando com todas as letras, de que os ateus não merecem ser cidadãos plenos.


Presidente, queremos aqui dizer para todos: somos cidadãos, e temos direitos. Incluindo o de não sermos vilipendiados em praça pública pelo chefe do nosso Estado, eleito com o voto, também, de muitos ateus, que agora se sentem traídos.
Presidente, não podemos deixar de apontar que somente um estado verdadeiramente laico pode trazer liberdade religiosa verdadeira, através da igualdade plena entre religiosos de todos os matizes, assim como entre religiosos e não-religiosos de todos os tipos, incluindo ateus e agnósticos. Infelizmente, seu governo não apenas tem sido leniente com violações históricas da laicidade do Estado brasileiro, como agora espontaneamente introduziu o maior retrocesso imaginável nessa área que foi a assinatura do acordo com a Sé de Roma, escorado na chamada lei geral das religiões.


Ambos os documentos constituem atentado flagrante ao art. 19 da Constituição Federal, que veda “relações de dependência ou aliança com cultos religiosos ou igrejas”. E acordos, tanto na linguagem comum como no jargão jurídico, são precisamente isso: relações de aliança. Laicidade, senhor presidente, não é ecumenismo. O acordo com Roma já era grave; estender suas benesses indevidas a outros grupos não diminui a desigualdade, apenas a aumenta. Nós não queremos privilégios: queremos igualdade e o cumprimento estrito da lei, e muitos setores da sociedade, religiosos e laicos, têm exatamente esse mesmo entendimento.


Além de violar nossa lei maior, a própria idéia da lei geral das religiões reforça a política estatal de preterir os ateus sempre e em tudo que lhes diz respeito como ateus. Com que direito o Estado que também é nosso pode ser seqüestrado para promover qualquer religião em particular, ou mesmo as religiões em geral? Com que direito os religiosos se apossam do dinheiro dos nossos impostos e do Estado que também é nosso para promover suas crenças particulares? Religião não é, e não pode jamais ser política pública: é opção privada.


O Estado pertence a todos os cidadãos, sem distinção de raça, cor, idade, sexo, ideologia ou credo. Nenhum grupo social pode ser discriminado ou privilegiado. Esse é um princípio fundamental da democracia. Isso é um reflexo das leis mais elementares de administração pública, como o princípio da impessoalidade. Caso aquelas leis venham de fato integrar-se ao nosso ordenamento jurídico, os ateus se juntarão a tantos outros grupos que irão ao judiciário para que nossa realidade não volte ao que era antes do século retrasado.

Presidente, por tudo isso será que os ateus não merecem inclusão sequer em um pedido de desculpas?






quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Outro devaneio


E se deixássemos a mediocridade?

E se deixássemos de nos fazer de loucos pra viver?

Porque, você sabe, né, tem muita gente se fazendo de louca pra viver.

Ó, não estou dizendo que é condenável... Num mundo tão medíocre, cada um, senão todos, tem suas vávulas, suas pequenas indulgências.

Deve ser isso: todo mundo sabe que vai morrer mesmo, então segue se matando aos poucos. Uns mais rápido que outros, com medo da morte sempre. Mas cometendo os erros mais ridículos, os erros mais medíocres, e colocando o nome de quem não tem nada a ver no meio. Mas precisamos falar alguma coisa, o silêncio incomoda, precisamos, precisamos....
...a loucura.


Mas, ó, se a carapuça serve, servimos bem para servir sempre.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

sonhos agastados

Não, não sou eu, é alguém mais que sofre.
Eu não teria podido. Panos negros de lã cubram
O que se passou,
E levem embora os lampiões...
.............................Noite.
Anna Akhmatova

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Fantasmas

Por mais que morram; por mais que tenham deixado tudo para trás; suas coisas, sua vida, seus ardores, seus gatos e tudo o mais que achava e que ainda acha que ama, e a falta que acham que faz, não perceberam ainda que estão mortos. E acabou. Chega dessa história de terror mal contada, mal amada, mal terminada. Não que aqui na terra seja história somente feliz, mas é história verdadeira. Entendeu? Verdadeira, pro seu penar. E mais nada.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

agasta-se

A gente se perde em tanta ideia, tanta criação.
E o tempo passa e a gente passa com ele.
É clichê, eu sei. Mas é um clichê forte demais pra passar em branco.
Um dia as ideias param aqui.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

A garota no trem

Ela parecia tão comum. Mas sua expressão, seus gestos, me chamaram a atenção. Minha tristeza é jamais saber o que se passava na sua cabeça naquele instante. Parecia tão longe dali. Parecia tão deslocada, anacrônica até. Não queria que ela se afastasse de mim. Como não foi possível e como dali eu não ia conseguir obter pensamento algum, resolvi registrá-la. Ei-la. O bom é que ela pode ser do jeito que eu quiser. Ela pode ser uma garota legal. Pode gostar de mim. Ela pode sair comigo. Levo-a no bolso. Ela não vai se afastar de mim. Não vai se assustar com esse meu jeito. Essa é a minha garota. Agora que eu já a tenho, espero não encontrá-la mais no trem. A mim interessava apenas os seus pensamentos e talvez a sua personalidade. Agora que tenho a sua imagem e ela pode ser do jeito que eu bem entender, desço na próxima estação e não se fala mais nisso.

Mediocridade, passei no vestibular. Mas a faculdade, ela é particular.

O que se chama de consciência limpa? Ir à igreja aos domingos, passear no shopping com o (a)namorado(a)? Lavar a louça pra sua mãe? Devem resumir mesmo a vida das pessoas medíocres. Vão se casar, ter filhos e só. E a consciência limpa. Um dia está bem, outro dia está mal. E assim a gente segue no deixa a vida me levar. Mas não comenta nada, porque eu não gosto de pagode. E assim, segue-se enganando-se, como diz uma outra música: A vida não é tão boa, mas eu tenho meus paliativos (carros, bolsas, remédios), segue-se na esperteza, no jeitinho, na brasilidade. E assim, se segue a vidinha inútil, com uma certeza medíocre de que está fazendo tudo certo. Mesmo quando o travesseiro te avisa que não é bem assim. Erro daqui, erro de lá, mas que importam as pessoas? Que importa sua conduta, seu sentimento? Que importa a ética? Isso não existe, não é mesmo? Importa a audiência, e a promoção social: olha pra mim, eu sou legal. O que importa é o expediente, é o fechamento do jornal. E viva a mediocridade! Porque o reconhecimento é a sobremesa.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Surgi

Ele nasceu. Da necessidade. Da extrema necessidade de mostrar-se ao mundo. Ei-lo.